SÃO VICENTE MÁRTIR - SUA HISTÓRIA


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 A HISTÓRIA DE SÃO VICENTE (Fonte: Legenda Aurea)

Vicente deriva de vitium incendens, "queimando o vício", ou de vincens incendia, "aquele que vence os incêndios", ou de vincens, "vitorioso". De fato, ele incendiou, isto é, consumiu os vícios pela mortificação da carne, venceu o incêndio aceso para seu suplício suportando as torturas com constância, foi vitorioso sobre o mundo desprezando-o. Por meio de sua sabedoria, pureza e constância venceu os três flagelos que existiam no mundo, as falsas doutrinas, os amores imundos, os temores mundanos. Agostinho disse: "Os martírios dos santos foram e continuam sendo exemplos para vencer o mundo com todos os seus erros, amores e temores". Alguns sustentam que foi Agostinho quem descreveu o martírio desse bem-aventurado, posto em belíssimos versos por Prudêncio.

Vicente, nobre de nascimento, foi ainda mais nobre por sua fé e sua religião. Foi diácono do bispo Valério, e como se exprimia com mais facilidade do que o bispo, este lhe confiou a pregação, enquanto ele próprio se ocuparia da prece e da contemplação. Daciano, presidente do tribunal imperial, ordenou que os dois fossem levados a Valência e encerrados numa prisão. Quando os imaginou quase mortos de fome, mandou que fossem levados à sua presença, mas vendo-os sadios e alegres ficou colérico e disse: "O que você tem a declarar, Valério, por pretextar a religião para agir contra os decretos dos príncipes?". Como Valério respondeu recatadamente, Vicente disse-lhe: "Venerável Padre, não fale com tanta timidez, sussurrando, mas solte a voz com toda liberdade. Se você quiser, santo padre, eu responderei ao juiz". Valério respondeu: "Há muito tempo, querido filho, confiei a você a tarefa de falar, e também agora peço que fale da fé que nos trás aqui". Então Vicente voltou-se para Daciano: "Até agora você fez discurso para combater nossa fé, mas saiba que para os cristãos é uma blasfêmia recusar-se a prestar à Divindade a homenagem que lhe é devida". Irritado, imediatamente Daciano decretou o exílio do bispo, e quanto a Vicente, considerando-o um jovem arrogante e presunçoso, condenou-o ao potro, no qual teria todos os seus membros deslocados, a fim de que este castigo servisse de exemplo a outros.

Quando o corpo estava todo desconjuntado, Daciano perguntou-lhe: "Que tal está agora seu miserável corpo, Vicente?". Este, sorrindo, respondeu: "Como sempre desejei". Irado, o juiz ameaçou-o com todo tipo de tormentos se não renegasse suas idéias. Vicente então lhe disse: "Ó como estou feliz! Ao fazer o que pensa que me fere, você me faz o maior benefício. Anda, miserável, lança mão de todos os recursos maldosos e verá que quando sou torturado tenho, com a ajuda de Deus, mais força do que quem me tortura". Descontrolado, o juiz pôs-se a grita e a chicotear os carrascos, levando Vicente a ironizar: "Então, Daciano, agora você castiga aqueles que me torturam". Fora de si, o juiz repreendeu os carrascos: "Miseráveis, vocês não fazem nada? Suas mãos estão cansadas? Vocês venceram adúlteros e parricidas de forma tal que eles não foram capazes de esconder nada diante dos suplícios, e hoje, sozinho, Vicente pode superar as torturas que vocês lhe infligem".

Os carrascos enfiaram-lhe então pentes de ferro até o fundo das costelas, de maneira que o sangue jorrava de todo corpo, e viam-se as entranhas entre as juntas dos ossos. Daciano: "Tenha piedade de si mesmo, e poderá recobrar a beleza da juventude e escapar dos tormentos que o esperam". Vicente: "Ó língua venenosa do diabo! Não tenho medo de seus tormentos. Só há uma coisa que temo: que você se apiede de mim, porque quanto mais o vejo irritado, mais fico alegre. Não diminua esses suplícios, pois quero vê-lo reconhecer-se vencido".

Ele foi então tirado do cavalete e levado a um braseiro ardente, enquanto alegremente estimulava os carrascos. Por conta própria ele subiu na grelha, onde foi assado, queimado e consumido. Enfiaram-lhe garfos de ferro e lâminas ardentes em todos os membros, fazendo as chamas ficarem cobertas de sangue. Eram chagas em cima de chagas. Jogavam sal no fogo para que a chama crepitante o queimasse ainda mais cruelmente. Já não era nos membros, mas nas entranhas, que lhe enfiavam dardos. Suas vísceras saíam do corpo. Apesar disso, ele permanecia imóvel, os olhos voltados para o Céu, orando ao senhor. Quando os carrascos relataram tudo isso a Daciano, este falou: "Vocês foram vencidos, mas como ele ainda vive, vamos prolongar o sofrimento. Tranquem-no na mais horrenda masmorra, coloquem no chão cacos bem pontudos, preguem seus pés numa estaca, deixem-no deitado nesses cacos sem ninguém para consolá-lo, e quando ele morrer avisem-me".

Imediatamente os cruéis servidores obedeceram a seu amo, ainda mais cruel. Porém o rei pelo qual aquele soldado sofria transformou suas penas em glória: as trevas da masmorra foram dissipadas por uma luz imensa, as pontas dos cacos tornaram-se flores de suave perfume, seus pés foram soltos, anjos passaram a consolá-lo. Ele passeava sobre as flores cantando com os anjos doces melodias, enquanto as flores espalhavam um maravilhoso odor. Vendo através de frestas na parede o que acontecia lá dentro, os carcereiros converteram-se. Diante dessa notícia, Daciano, furioso, perguntou: "O que faremos? Esse homem nos venceu. Levem-no para uma cama, ponham-no sobre almofadas macias. Não tornemos ainda mais glorioso, deixando-o morrer nos tormentos, e assim que ele recuperar as forças, que lhe sejam infligidos novos suplícios".

Logo que foi carregado para uma cama macia e repousou um pouco, rendeu o espírito, por volta do ano do Senhor de 287, sob Diocleciano e Maximiano. Ao saber da novidade, Daciano ficou espantado e irado e, reconhecendo-se vencido, disse: “Já que não pude vencê-lo vivo, vingar-me-ei dele depois da morte, mandando destruir seu cadáver". Então, por ordem de Daciano, seu corpo foi exposto num campo para servir de pasto aos pássaros e animais. No entanto, logo ele passou a ser guardado pelos anjos, e mesmo um corvo, ave voraz por natureza, expulsou a golpes de asas outros pássaros mais fortes que eles, e com suas bicadas e gritos pôs em fuga um lobo que se aproximava. A cada vez que assim fazia, o pássaro virava a cabeça para olhar fixamente o santo corpo, como se juntasse sua admiração à dos anjos. Quando soube disso, Daciano reconheceu: "Acho que não o vencerei nem mesmo depois da sua morte". Mandou então amarrar no santo corpo uma enorme pedra e jogou-o no mar, para que, não tendo sido devorado na terra pelos animais, pelo menos fosse devorado por monstros marinhos. O corpo do mártir foi levado a alto-mar, porém mais rápido do que os marinheiros o tinham levado, ele retornou à praia, onde foi encontrado por uma senhora e alguns outros cristãos que tinham tido uma revelação a respeito, e o sepultaram honrosamente.

Agostinho disse deste mártir: "O bem aventurado Vicente venceu em palavras, venceu em sofrimentos, venceu em seu testemunho, venceu em sua tribulação. Venceu queimado, venceu afogado, venceu vivo, venceu morto". E acrescentou: "Vicente foi torturado para se exercitar, flagelado para se instruir, espancado para ser fortalecido, queimado para ser purificado".

Ambrósio expressou-se sobre ele nestes termos: "Vicente foi torturado, espancado, flagelado, queimado, mas não vencido e sua coragem de confessar o nome de Deus não foi abalada. O fogo de seu zelo foi mais ardente do que ferro em brasa; nele prevaleceu o temor a Deus sobre o temor ao mundo; ele preferiu agradar a Deus do que ao público; preferiu morrer para o mundo a morrer para o Senhor".

Agostinho escreveu: "Um maravilhoso espetáculo está diante de nossos olhos; um juiz iníquo, um carrasco sanguinário, um mártir que não foi vencido, um combate da crueldade contra a piedade".

Prudêncio, que brilhou sob o reinado de Teodoro, o Velho, em 387, afirma que Vicente respondeu assim a Daciano: "Tormentos, prisões, garfos, lâminas crepitantes de fogo e, enfim, a morte, que é a última das penas, tudo isso é brincadeira para os cristãos". Então Daciano teria replicado: "Amarrai-o, torcei-lhe os braços até que as juntas de seus ossos sejam deslocadas peça por peça, a fim de que, pelas aberturas das feridas, veja-se seu fígado palpitando". E o soldado de Deus ria, deliciando-se com as mãos ensangüentadas, que não conseguiam enfiar mas fundo em suas articulações os garfos de ferro. Na prisão, um anjo estimulava-o, falando: "Coragem, ilustre mártir, vem sem medo, vem ser nosso companheiro na Assembléia Celeste. Ó soldado invencível, mais forte que os mais fortes, esses tormentos cruéis e pavorosos o temem e proclamam-no vencedor!". Prudêncio exclamou: "Você é ilustre por excelência, pois obteve a palma de uma dupla vitória, de dois triunfos ao mesmo tempo".